Thursday, March 22, 2007

Não pule as etapas. Elas passam sozinhas.

Cada vez que entrava naquela sala de espera, sentia que estava nas nuvens. Literalmente. As paredes eram pintadas em azul claro, o céu tinha nuvens desenhadas e os sofás também eram estampados em azul. As enfermeiras eram sorridentes e você podia fazer qualquer pergunta pra ela, que ela nunca demonstrava impaciência. Nas paredes haviam quadros de anjos; como se dissessem, Deus está contigo. Era tudo perfeito e intocável. Para se passar tranqüilidade. Era um consultório pediátrico tipicamente projetado para crianças. Ou para mulheres que esperavam crianças. O meu caso.
Era o quarto mês que estávamos lá. No mesmo dia e na mesma hora. Todas às vezes.
Pedro estava vendo televisão ao meu lado, totalmente alienado com o mundo externo. Era típico dele, ainda mais passando corrida de fórmula um. Meu marido, como outro marido qualquer, era viciado em esportes. E em canal de esportes por tabela. Não parecia nem que estávamos lá para saber o sexo do bebê. Uma incerteza que martelava nossas cabeças nesses últimos meses. Mais lá estava ele, como se nada mais importasse; a não ser se o Michael Schumacher ia chegar em primeiro lugar ou não. Homens, todos iguais.
Não conseguia me concentrar na televisão, muito menos na revista, onde a manchete estava impressa com letras amarelas garrafais sobre o divórcio de Suzana Vieira. Passei a observar a sala. Aquela antiga mania de observar as pessoas e tentar decifrá-las, mesmo sabendo que não é tão simples assim. Minha avó costumava me chamar de bisbilhoteira quando era menor. Ela nunca entendeu que não estava bisbilhotando, estava observando. Mais sobre todo o resto, ela foi a melhor professora que a vida me deu. Após sua morte, carregava comigo uma frase que ela me dizia sempre: “Não pule as etapas da vida, há sempre hora e lugar para tudo neste mundo”. Segui o conselho dela, mais percebi que muita gente não conseguia fazer o mesmo.
Ao ver a menina sentada no sofá a minha frente, entendi o que era pular uma etapa. Ela definitivamente tinha pulado várias etapas. Era uma menina que chamava atenção. Ainda conservava os traços de adolescente bonita, mas a expressão dura que aquele mesmo rosto adotava mostrava na verdade todas as lágrimas que ela teimava em não derramar. Os cabelos castanhos que em tempos antigos deveriam ser sempre caprichosamente arrumados, estavam soltos desalinhados por cima de seu ombro e seus olhos verdes era agora opacos e sem brilho algum. Quem olhasse dentro deles, poderia ver o sentimento de abandono e tristeza trasbordando ali. Era uma adolescente que virou mulher rápido demais. Apenas isso.
Pousava uma mão na barriga, um gesto inconsciente. De toda mulher grávida. Uma mulher que não sabia o peso de ser mulher. Uma mãe que não sabia a real importância da palavra mãe.
Percebi que como eu, tentava passar o tempo. Ela via televisão, mais era visível que tudo o que seus olhos processavam não tirava sua atenção da criança agora em seu ventre. Não deveria ter mais de dezessete anos. Notava-se que mesmo com todo aquele ar de abandono era alguém que teve oportunidades na vida e uma família para sustentá-la. Não parecia alguém sem orientações, pelo contrário.
Deveria estar tendo que passar por tudo aquilo sozinha. Parecia entregue a própria sorte. Naquela hora, agradeci mentalmente a Deus por não ter feito isso acontecer comigo. Não ter ninguém ao seu lado, num momento como esse, era a pior coisa que podia acontecer, ainda mais quando não se estava preparada. O que era o caso daquela menina. Estava estampado em seu olhar que um filho agora, era o que ela menos queria.
A enfermeira se aproximou dela para fazer uma ficha. Então aquela era sua primeira consulta. A cada pergunta os olhos da menina ficavam maiores, não de susto, mais se sustentando para não chorar. Quando a enfermeira perguntou se havia algum acompanhante, ela baixou os olhos e respondeu um “Não.”. Seco e curto. Era como se nunca tivesse um alguém. Era como se fosse apenas ela e o bebê. Sempre.
Estava com pena daquela menina e de tudo o que um ato apressado e impensado tirou dela. Afinal, lá estava ela, contra todas as estimativas e pesquisas populacionais. A exceção. Em um mundo que sempre se leva em conta a probabilidade. Ela deveria ter um futuro brilhante já planejado pelos pais e uma vida inteira diferente da que estava esperando por ela dali pra frente. Teria que abrir mãos dos seus planos e suas idéias. Nunca se imaginaria que alguém como ela estaria ali; numa sala de espera, sozinha, sem o apoio de sua ninguém. Mais era isso que tinha acontecido.
Era mais uma adolescente que desistia de sua vida para gerar outra vida. E não tinha idéia do que ia ter que passar.
Antes que pudesse pensar em fazer algo, ouvi meu nome ser chamado. Levantei e chamei por Pedro. Ele me lançou um sorriso e levantou, já caminhando em direção a sala do Dr. Ronaldo. Eu retribui e o segui lentamente. Um pouco antes de fechar a porta, pude sentir um olhar depositado em mim. Era aquela menina. Dei um pequeno sorriso pra ela que, com alguma dificuldade, sorriu também.

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